Ama fofocar? Entenda por que falar dos outros pode ser tão prazeroso


"Você viu o novo namorado dela?"; "Acho que os dois estão enfrentando problemas com os filhos"; "Ontem ele falou barbáries de você". Ai, ai, a fofoca, um hábito que talvez acompanhe a humanidade desde os primórdios. Homens pré-históricos futricavam entre si sobre a vida na caverna de seus adversários. Já entre Idade Média e Renascimento mexericos levaram milhares para a fogueira. E, atualmente, eles agitam redes sociais e geram fortunas.
Segundo os especialistas consultados por VivaBem, o ato de descobrir uma informação (que pode, ou não, ser totalmente verdadeira) sobre alguém e, posteriormente, contá-la a uma ou mais pessoas envolve vários motivos. Para além da curiosidade, pode ser movida por ciúmes, desejos de vingança, atenção, valorização, alívio, diversão, em se obter ganhos posteriores. Quanto mais o fofoqueiro fala e é ouvido, mais estimulado ele se sente para manter o vício.

Sim, vício, porque fofocar frequentemente cursa com compulsão. Muita gente não se dá conta, ou acha inofensivo, por ser um costume que se aprende em casa, com a família, ou na escola, com os amigos, e banalizado culturalmente por programas de TV, revistas, sites. Mas é um hábito muito negativo, concordam os entrevistados. Primeiro, por prejudicar relações e pessoas, às vezes, desconhecidas. Depois, por impedir que eventuais questões internas sejam tratadas.

Fofoca conta mais sobre si
Pode-se dizer que existem dois tipos bem diferentes de fofocas, mas que em comum cumprem o mesmo propósito: transferir o foco de si para o outro. Seja porque a própria rotina é muito desinteressante, sem grandes acontecimentos, conquistas, afazeres, então dá prazer, mesmo que momentâneo, discutir o que se passa na vida alheia. Ou, muito mais preocupante, por não saber lidar emocionalmente com traumas, baixa autoestima, fracassos, preconceitos, inveja.

"É mais fácil apontar erros, defeitos, comportamentos inadequados dos outros do que falar de algum assunto relevante, ou de como anda a própria vida, os aspectos pessoais", aponta Eduardo Perin, psiquiatra e especialista em terapia cognitivo-comportamental pelo HC-USP (Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo). Ele continua que, assim, o fofoqueiro se sente isento de culpa, ou blindado, afirmando, inclusive para si, que com ele está tudo bem.

Quando não se gosta do alvo em questão ou se encontra alguém disposto a ecoar fuxicos negativos a seu respeito com a mesma intensidade, a convicção de que se está certo é ainda maior. A conversa, se antes parecia pender para a monotonia, agora se torna extremamente interessante e o interlocutor, agradável. O cérebro, por receber essa recompensa imediata, encharca-se de substâncias como serotonina, dopamina, e desfruta de "orgasmos" psíquicos.

Há quem não fuxique nunca?
Embora todo mundo esteja sujeito a comentar maldosamente sobre a vida alheia, ou a não se conter e propagar adiante segredos que lhe foram confiados, há quem não se entregue facilmente a essa prática. Para além dos leais, os mais introvertidos, voltados para dentro de si, os tímidos, pois apresentam dificuldades de socialização e temem situações em que possam ser apontados ou atrair atenções, e os que são indiferentes, desatentos ou mesmo maduros.

"Uns ainda não sentirão tanto prazer em fofocar, falar mal, pois não têm uma 'pulsão de oralidade' direcionada, reforçada para isso. Ou seja, uma satisfação em falar, um estímulo erógeno da área oral. Pode ser que sua pulsão de oralidade seja direcionada para outra coisa, como, por exemplo, fumar, beber, xingar, mentir, mas não fofocar, falar mal", analisa Joeuder Lima, doutorando em psicologia pelo IESLA (Instituto de Educação Superior Latino-Americano) e psicólogo da Clínica Saúde Vida Plena, em Palmas (TO).

Nem todo fofoqueiro também se encaixa no perfil "de plantão". Há aqueles que são, digamos, "eventuais" e até bem menos nocivos do que os ávidos em querer causar intrigas, motins, eventualmente calcados em boatos, conspirações. Para saber a intenção por trás é necessário avaliar discurso, conteúdo, pois pode ser que o falar seja passageiro, decorrente do luto em função da ruptura de alguma relação marcada por traição, injustiça da qual se tenha sido vítima.

Como encerrar um buchicho

Entre colegas de trabalho, em um encontro familiar ou em uma rodinha de amigos muito unidos, tomar cuidado com fofoca é pouco. Se não quiser ser seduzido por um "informante" de fama duvidosa, do tipo que gruda sempre em alguém para contar um causo do qual jura não estar envolvido, mas que lhe diz respeito, a indicação é repeli-lo. Se tiver intimidade, diga educadamente que não quer saber, por estar bem consigo mesmo e não dar importância.


Ele insistindo ou mudando o enfoque, agora para as intimidades de conhecidos, mude de assunto, não ria se ele quiser parecer engraçado e chame outras pessoas para a conversa. Assim, espera-se que, desconfortável, o fofoqueiro contenha-se. "Mas nem sempre é possível evitar. Sendo algo persistente, informe sobre como é negativo esse tipo de comportamento, o quanto ele cria problemas e que a imagem repassada por ele está longe de ser boa", orienta Luiz Scocca, psiquiatra pelo HC-USP e membro da APA (Associação Americana de Psiquiatria).

Segundo o médico, pessoas que se deliciam em fofocar e caluniar detestam que lhe apontem os próprios defeitos. Tem a ver com se defender dos desejos, sentimentos e pensamentos nutridos e atribuídos em relação ao outro e que não se aceita ou se desconhece em si. Por isso, aproveite esse pedido de ajuda enviesado para esclarecer sobre a importância de se autoconhecer, de que fofocar é patológico e que pode requerer ajuda profissional para se superar.

UOL




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