Pais criticam demora de reabertura das escolas do Ceará; especialistas comentam

Enfrentando uma segunda onda da pandemia, o Ceará tem suas atividades de ensino ocorrendo em grande parte apenas de forma virtual | Foto: Diego Camelo


O Movimento Escolas Abertas, formado por pais que desejam o retorno das aulas presenciais no Ceará, emitiu uma nota, nesta segunda-feira, 5, mostrando insatisfação com o fato do governador Camilo Santana (PT) não ter se manifestado ainda sobre a reabertura das instituições de ensino. O petista, por meio de transmissão online realizada ontem, anunciou que um projeto de flexibilização das atividades será iniciado no próximo dia 12, mas não mencionou se essa retomada contemplaria o ensino presencial.

A principal critica realizada pelo grupo é a de que o governador não fez aceno ao retorno das atividades presenciais de educação, que seguem paralisadas em quase todas as faixas de ensino devido a segunda onda da pandemia vivenciada pelos municípios cearenses. "Durante mais de 11 minutos na live de ontem, o governador Camilo Santana não cita, em nenhum momento, que o ensino estará contemplado no plano de reabertura", diz trecho da nota emitida.

Fernanda Araújo, médica e uma das fundadoras do grupo, apontou em documento que a não inclusão do ensino como prioridade no plano de reabertura do Governo, caso ocorra, vai trazer prejuízos aos alunos. Como exemplo, ela frisou que os estudantes da rede particular vão começar a desfazer suas matrículas das instituições, provocando um movimento que chamou de "desmatrícula em massa".

Procurada pelo O POVO, a assessoria do Governo do Estado informou que "assim como todas as áreas, esse assunto (retorno presencial das aulas) será discutido ao longo da semana". O órgão ainda frisou que a retomada das atividades não foi definida ainda em nenhum dos setores. As discussões a respeito serão realizadas nos próximos dias, a partir de conversas entre um representante estadual com pessoas que representem os interesses das categorias.

Essa não é a primeira vez que o movimento se articula de forma critica as decisões do Governo. Desde o inicio da pandemia, há pouco mais de um ano, a gestão estadual tem optado por paralisar aulas presenciais para diminuir a taxa de transmissão do vírus. Em contrapartida, os pais passaram a se organizar para pedirem pelo retorno do modelo educacional, justificando que a escola é um ambiente seguro e que aulas virtuais prejudicam o desempenho escolar.

Com uma melhora nos índices que medem a situação da doença no Ceará, o Governo chegou a elaborar decretos que liberavam de forma gradual a retomada das aulas presenciais, ainda no fim de 2020. No entanto, com o surgimento da segunda onda pandêmica, no inicio deste ano, apenas o ensino para crianças de até três anos seguiu sendo realizado nesse modelo no Estado.

"Crianças da pandemia"

Carol Parente, médica pediatra, afirmou que a decisão do Governo de manter essa faixa-etária estudando de forma presencial foi importante. De acordo com a especialista, o isolamento social provocado pela pandemia afetou o progresso motor e neurológico das crianças, uma vez que elas precisam de socialização para desenvolverem habilidades, principalmente nos primeiros anos de vida.

Segundo a médica, os pediatras já denominam como "crianças da pandemia" aquelas que sofreram impactos devido ao isolamento. Como exemplo ela cita o próprio filho, de apenas um ano e meio, que estava com dificuldade de responder a estímulos motores e chegou a precisar de terapia ocupacional. "No começo pensamos que era autismo, mas depois percebemos que não", pontuou Carol. 

A pediatra frisa que, assim como o filho, existem diversas outras crianças que passam pelas mesmas dificuldades, devido a falta de socialização. Nesse sentido, ela considera que o ensino presencial é uma forma delas terem um convívio social saudável, de saírem de casa para socializarem com terceiros e desenvolverem habilidades de forma segura.

Quanto aos perigos de contaminação, a médica frisa que crianças tendem a repetir gestos de adultos e, por isso, não desobedecem quanto ao uso de máscaras e a higienização. "Era um medo que a gente tinha, das crianças rejeitarem o uso das máscaras ou ficarem trocando com os colegas, mas elas utilizam com cuidado porque observam o adulto fazendo o mesmo. Além da questão lúdica, de usarem máscaras com desenhos animados e gostarem disso", frisa.

Em relação as crianças acima de três anos que continuam estudando de forma virtual, Carol Parente destaca que o modelo, além das questões apontadas acima, traz outras problemáticas. "A escola tem todo o cuidado (de higiene) e se torna um ambiente sadio. No tablet (as crianças) não conseguem prender a visão. Elas cansam. Se distraem", pontua.

No inicio deste mês, índices da Secretaria de Saúde do Estado (Sesa) apontaram um aumento no número de internações do público infantil nas Unidades de Terapia Intensivas (UTIs) por problemas respiratórios. No entanto, a pasta lançou uma nota explicando que a grande maioria de quadros desse porte foram provocados por outros vírus que costumam se disseminar mais fortemente em período chuvoso. 

Momento ainda não é de retorno

Uma das principais questões levantadas pelo movimento dos pais é que a escola tem mais segurança do que muitos outros ambientes, como a própria residência. Como justificativa, o grupo aponta um comparativo entre os dois momentos da doença vivenciados no Ceará, onde o número de casos da Covid-19 aumentou mesmo com as instituições de ensino fechadas.

"A gente está há mais de um ano com as escolas fechadas e a pandemia veio, piorou, melhorou, voltou de novo, piorou de novo e a escola está fechada. Não precisa ser nenhum cientista para entender que não existe relação entre a transmissão e a escola", destaca Fernanda, uma das lideres do movimento.

Para Marcelo Gurgel, médico epidemiologista e integrante do Grupo de Trabalho (GT) contra Covid-19 da Universidade Estadual do Ceará (Uece), essa comparação não deixa de ter sentido. Segundo o especialista, quando as escolas abriram de forma gradual foram percebidos apenas "casos eventuais", o que prova que as instituições não tem "um papel importante no contágio da doença". 

No entanto, o médico destaca que o Estado tem enfrentado o surgimento de uma nova variante, que disparou o número de pessoas que esperam por leitos e saturou os recursos de saúde. Nesse sentido, Gurgel afirma que o recomendado no momento seria esperar uma melhora nesse quadro para flexibilizar as medidas sobre o ensino, o que prevê que aconteça em cerca de duas semanas.

O POVO ONLINE

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