"Guerra Fria" e pandemia: como a corrida pela vacina reacende rivalidade entre Rússia e EUA

Na corrida em busca da vacina contra o novo coronavírus, a Rússia "ultrapassou concorrentes” ao divulgar, nessa terça-feira, 11, que desenvolveu o primeiro medicamento desse tipo com “imunidade duradoura”. O produto foi batizado como Sputnik V, em referência ao projeto espacial desenvolvido durante a Guerra Fria (1947 – 1991), parecendo provocar a potência com a qual o país manteve rivalidade durante o conflito político-ideológico, os Estados Unidos da América (EUA).

Com o semblante sério e a postura confiante, Vladimir Putin, presidente da Rússia, realizou uma videoconferência para dar a notícia que o mundo todo esperava. "Esta manhã, pela primeira vez, foi registrada uma vacina contra o novo coronavírus", afirmou o líder na ocasião, garantindo que medicamento tem eficácia e que permite uma imunidade longa.

Para dar credibilidade ao anúncio, o presidente ainda afirmou que uma de suas filhas participou dos experimentos e que ela teria demostrado como efeito colateral apenas "um pouco de febre", apresentando alto número de anticorpos após processo. Em seguida, agências de noticias russas informaram que vacina seria distribuída ainda em janeiro de 2021.

O anúncio repercutiu mundialmente e trouxe à tona dúvidas quanto a rapidez em que a vacina foi criada. A Organização Mundial da Saúde (OMS), que havia pedido cautela à Rússia na semana anterior à divulgação,  lembrou que a "pré-qualificação" e a homologação de uma vacina passam por "procedimentos rigorosos".

A reação veio, entre outros, pelo fato dos cientistas russos ainda não terem apresentado um estudo detalhado dos resultados de seus testes. Esse passo é fundamental para que o produto tenha a sua eficácia realmente comprovada, mediante clareza do processo.

Um passo a frente dos concorrentes

Mesmo sem apresentação dos estudos, a divulgação do imunizante fez a Rússia avançar na corrida pela vacina do novo coronavírus, ultrapassando concorrentes que já estão na última fase de experimento do processo, sendo elas três vacinas ocidentais e duas chinesas.

Entre esses imunizantes está o produzido pela Universidade de Oxford, Reino Unido, associada ao grupo farmacêutico sueco-britânico AstraZeneca, e o realizado pela empresa norte-americana Moderna. Procedimentos são ainda financiados por grandes potências, como o EUA.

O país, aliais, é um dos principais "concorrentes da Rússia" quando o assunto é produção de vacina contra a Covid-19. Seguindo uma operação denominada Warp Speed (alta velocidade) o governo dos Estados Unidos  já subsidiou sete desenvolvedores de vacinas, investindo pelo menos US$ 9,4 bilhões, e sendo algumas delas do grupo que está na última fase do processo de testagem.

A rivalidade foi colocada "na mesa" quando a Rússia informou que batizaria a vacina de Sputnik V, em homenagem ao projeto espacial que a União das Repúblicas Socialistas Sov­­­­­­­­­­­­­­­iética (URSS), a qual o país era integrante, desenvolveu durante o período da Guerra Fria. Anúncio pareceu querer provocar os EUA, que foram o principal inimigo dos russos durante o conflito geopolítico. 

A guerra por trás da provocação

O período conhecido na história como Guerra Fria se deu após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). EUA (capitalista) e URSS (socialista) eram as duas maiores potências da época e disputavam a superioridade mundial travando confrontos em áreas como a econômica, a espacial e -principalmente, a ideológica.

Durando décadas, de 1947 à 1991, o conflito teve como caraterística o fato de não ser realizado com armas, como eram até então feitos todos os confrontos. Por isso levou o nome de Guerra "Fria", representando apenas uma tensão que dividiu o mundo em dois blocos, o socialista e o capitalista.

Em meio a essa corrida desenfreada por poder, um país sempre buscava se destacar sobre o outro. O projeto espacial Sputnik, cujo nome batiza a vacina russa, foi um dos principais acontecimentos do período e um dos grandes feitos científicos da história, que acabou sendo o responsável indireto pelo homem ter pisado na lua.

O Sputnik 1 foi o primeiro satélite artificial a ser lançado em órbita da terra, em 1957. Nos anos seguintes, mais quatro versões do projeto foram lançadas, levando pela primeira vez um ser humano ao espaço - sendo ele a cachorrinha conhecida como Laika, e em seguida o primeiro homem, Alexeievitch Gagarin.

De acordo com o tenente Romário Fernandes, professor de astronomia do Colégio Militar do Corpo de Bombeiros do Ceará (CMCB), o projeto russo foi um grande marco para a área. O especialista explica que esse avanço permitiu que fossem extraídas novas e importantes informações sobre a inosfera, camada da atmosfera. 

Além disso, Romário considera que o Sputnik deixou um legado de extrema importância para a história espacial. "O ser humano teve, pela primeira vez, a experiência de colocar um satélite artificial em órbita da terra, enviando ainda um animal e um homem ao espaço", pontua.

O êxito de Gagarin impulsionou o presidente dos EUA à época, John Kennedy, a colocar o primeiro ser humano na lua, na década de 60. A disputa entre as duas potências só teve fim em 1991, quando a URSS foi fragmentada em várias repúblicas independentes - entre elas a Rússia, em ato que marcou o encerramento da Guerra Fria.

Mesma rivalidade, roupagem diferente

Quase meio século após o fim do conflito, EUA e Rússia se encontram agora novamente em uma corrida para provar quem tem mais poder. De acordo com Kleiton de Sousa, professor do departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), a Guerra Fria deixou a esses países uma rivalidade que, em tempos de crise politica, é inflamada como forma de mobilização.

"O que nós podemos enxergar hoje é uma disputa por mercados entre ambos os países. De forma que essa antiga rivalidade por vezes é apropriada pelos governantes para reacender a antiga competição, mas em um novo aspecto", pontua o docente.

No caso da corrida pela vacina, por exemplo, os dois países estariam em "confronto" para liderar a descoberta que marcaria a história da indústria farmacêutica, o que também resulta em lucros. Kleiton considera que a Rússia provoca o EUA, mas por uma estratégia de controle de mercado, e não pelas velhas questões ideológicas que rodearam um dos maiores conflitos internacionais da história.

O "prêmio" dessa corrida, nesse sentido, seria principalmente o poder que o país teria no cenário politico. Caso vacina da Rússia, a qual o docente considera ter uma imagem de "potência que se busca resgatar", realmente seja eficaz, o país sairia beneficiado e inflamaria sua imagem diante do mundo.

O "blefe" e a consequência

Por outro lado, se a Rússia estiver apenas "blefando", ela pode sofrer consequências. Segundo Kleiton, o ato do "blefe" durante a Guerra Fria era bastante comum - funcionando à época como as atuais fakenews (notícias falsas), e fazendo parte de uma estratégia de poder.

"O artificio (blefe) era utilizado como uma ameaça ao oponente, com o objetivo de fazê-lo recuar, desestabilizar ou simplesmente para espalhar um êxito nem sempre conquistado", afirma o professor. No caso da vacina divulgada pela Rússia, ele considera que ainda é "difícil" avaliar se essa tática está sendo utilizada, ou algo parecido.

Mesmo que seja cedo para saber se a informação dada por Putin é verídica, Kleiton afirma que- como consequência, os EUA podem acelerar a busca por uma vacina. Apesar da disputa ser positiva nesse quesito, o especialista considera que os avanços não devem resultar em uma democratização do acesso.

Não é apenas no campo da história que a suspeita de "blefe" pode ter embasamento. Após o anúncio de que a fabricação da vacina ocorreu em menos de três meses, o biólogo e pesquisador Atila Iamarino, que se tornou um dos principais especialistas a tratar do assunto no Brasil, afirmou que medicamento não tem resultado.

"Adorei o nome, mas não tem resultado. O tempo não bate e ela não segue boas práticas. Não é registrada, não publicaram artigos ou testes, nem mostraram que é segura", escreveu o biólogo em sua página oficial no twitter, dando sequência a uma séria de comprovações do que falava.

Tempo de protocolo e a incerteza do futuro

O procedimento correto a ser tomado em caso de fabricação de vacina foi explicado pelo coordenador do Núcleo de Medicina Tropical da UFC, Ivo Castelo Branco, ao O POVO. O especialista informou que para criar um imunizante é necessário passar por três fases, sendo primeiro feitas pesquisas em laboratórios para avaliar diversas composições de produto e, posteriormente, testá-la em animais.

Só na segunda etapa do processo é que se começa a testagem em humanos. Dentro dessa fase, existe o momento em que se amplia o número de voluntários, para testar a vacina em grupos diferentes e garantir que ela realmente é segura.

Na fase 3, se utiliza o medicamento em um grupo de pessoas ainda maior - que representa uma população. Ivo explicou que essa etapa pode custar meses e, ao todo, o processo de fabricação de uma vacina pode durar anos para poder acontecer- o que não corresponde à "realidade" exibida pela Rússia.

A Sputnik V passou pela fase 1 ainda em junho deste ano e as outras etapas foram feitas em intervalos pequenos de tempo, que não chegaram sequer a ser comprovados ou divulgados pelos cientistas. "Honestamente, me custa a acreditar que uma vacina, em três meses, possa ser criada e surtir efeito", afirma o especialista.

Além disso, Ivo explica que os vírus da família do corona não respondem a um tipo de imunização por muito tempo, sendo necessário etapas de vacinação durante o ano e que ainda podem ser destinadas a grupos específicos. O processo demorado deixa o futuro ainda mais incerto, porém, é necessário para garantir total segurança do procedimento.

"Blefe" ou real, a divulgação do imunizante fabricado pela Rússia foi o impulso que aproximou o país do final da corrida, tendo atrás de si um Estados Unidos provocado e com a rivalidade inflamada pela nova disputa de poder. A resposta sobre quando e quem vence não é simples e o que se pode afirmar até o momento- contudo, é que ela chegará tarde para mais de 700 mil pessoas.

GABRIELA ALMEIDA / O POVO ONLINE

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