"Ciência não é inimiga da religião", diz médico chefe do hospital onde menina de 10 anos realizou aborto

O médico Olimpio Barbosa de Moraes Filho, diretor do hospital onde a menina de 10 anos que era estuprada pelo tio realizou aborto após engravidar, participou de debate e comentou sobre a atuação de conservadores e religiosos no processo. Grupo tomou a frente da unidade de saúde e fez confusão para tentar impedir o procedimento legalmente amparado. "A ciência não é inimiga da religião. Tanto a ciência quanto a religião trabalham juntos para o bem da humanidade. O ódio não cabe na ciência e nem na religião", pondera.

Em transmissão ao vivo viabilizada pelo Coletivo Rebento na noite desta segunda-feira, 24/8, e mediada pelas médicas Liduína Rocha, Aline Veras e Carolina Sales Vieira, que trouxe o tema "Direitos Reprodutivos no Brasil Atual", o ginecologista e obstetra falou que os eventos que culminaram na realização do aborto, no último dia 16 de agosto "despertam para uma maldade cada vez mais recorrente no Brasil". Olimpio, chefe do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), acredita que o debate sobre o aborto legal será ampliado depois deste caso.

"Isso é um reflexo do desmonte na assistência à mulher. Um caso desses serve para lembrar que nós somos seres humanos e tem uma finalidade clara de despertar a sociedade para as mazelas da sociedade patriarcal. A gente precisa lutar cada vez mais contra isso através da divulgação do conhecimento. A sensação que eu tenho é que participei de um grande confronto", comenta o médico.

Olimpio, que já foi excomungado pela Diocese de Pernambuco por apoiar campanhas de controle da natalidade no Estado e por, em 2009, ter autorizado o aborto de outra criança, de 9 anos, tem sido alvo de ataques. "Eles só me agridem até um certo ponto. Possivelmente é uma questão de gênero. Eu sou do gênero masculino, mas se eu fosse mulher eu estaria sofrendo muito mais", diz.

O ginecologista disse ainda que "não tem nenhum sentimento de raiva das meninas e jovens" que foram ao hospital protestar contra a interrupção da gravidez: "Eles são vítimas e eu tenho certeza que quando começarem a debater e ver outros pontos de vista irão acordar e ver o que representa isso".

Desrespeito histórico

A ginecologista, obstetra e professora paraibana Melania Amorim, que também participou do debate desta segunda-feira, 24, pontua que o negacionismo em torno do aborto legal é histórico e é um assunto que deve ser amplamente incluído na formação de futuros profissionais médicos. Desde 1940, o Código Penal brasileiro permite o aborto em situações de estupro e de risco à vida da gestante.

"Nosso primeiro dever nessas circunstâncias é estar ao lado e garantir direitos básicos. É impossível que a situação chegue a esse ponto que as pessoas enveredem para discussões paralelas e não legitimem uma prática que está prevista em lei", afirma a médica, que é integrante da Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras.

MATHEUS FACUNDO / O POVO ONLINE

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