Futebol cearense: a volta em meio à pandemia do novo coronavírus


O futebol cearense trabalha nos bastidores para tentar antecipar a retomada dos jogos, prevista para o próximo dia 20. O grupo de trabalho criado pelo Governo do Ceará, que realiza estudos sobre o cenário de retorno às atividades econômicas, recebeu protocolo da Federação Cearense de Futebol (FCF) para a volta das partidas a partir de 6 de julho, data já descartada, com ênfase, pelo governador Camilo Santana.

A situação causa desconforto, tanto que os presidentes do Ceará, Robinson de Castro, e do Fortaleza, Marcelo Paz, falam em atuar até fora do Estado para encerrar o Campeonato Cearense o quanto antes, cenário que seria "constrangedor" de acordo com o presidente da Federação Cearense de Futebol, Mauro Carmélio, em contato exclusivo com O POVO ontem.

O Ceará é o terceiro Estado do Brasil em números de casos de Covid-19 (116.519) e mortes confirmados (6.307) até ontem no final da tarde, pode ser o segundo a retomar as partidas de futebol no Brasil, através do Campeonato Cearense.

Após análise do grupo de trabalho, o trâmite do documento prevê avaliação da Secretaria Estadual da Saúde e, posteriormente, do governador Camilo Santana, que pode determinar a antecipação do retorno.

Inicialmente, os jogos do Campeonato Cearense estão previstos para ocorrer a partir do dia 20, quando o futebol completaria a quarta fase da retomada da atividade autorizada pelo Governo do Estado.

Os treinos foram liberados em 1º de junho, mas apenas Ceará e Fortaleza trabalham desde a primeira semana de liberação dos oito clubes que ainda disputam o torneio local. Os outros iniciaram bem depois. Até o momento, apenas o Rio de Janeiro, segundo com mais casos do novo coronavírus e mortes confirmados do Brasil, retomou o calendário de jogos.

A tendência no restante do país, de acordo com protocolos elaborados, é de retorno de partidas também para o fim de julho. Os principais torneios nacionais, as Séries A e B, têm projeções para agosto.

A volta do Campeonato Carioca aconteceu no dia 18 de junho na vitória do Flamengo por 3 a 0 sobre o Bangu no Maracanã, ao lado de um hospital de campanha contra a Covid-19, em meio a polêmicas. A retomada recebeu críticas.

"É constrangedor ser obrigado a competir no único país que planeja jogos de futebol convivendo com registros, em média, superiores a 1.000 mortes e 30.000 contaminações por dia [...] A pressa é sem explicação", diz trecho de nota divulgada pelo Alvinegro carioca.

Competições
Principais campeonatos envolvendo clubes cearenses de futebol em 2020

PRECISAM SER ENCERRADOS

- Campeonato Cearense (Ferroviário, Ceará, Fortaleza, Barbalha, Caucaia, Atlético-CE, Guarany e Pacajus)

- Copa do Nordeste (Ceará e Fortaleza)

- Copa do Brasil (Ceará e Fortaleza)

PRECISAM SER INICIADOS

- Segunda divisão do Campeonato Cearense (Icasa, Maranguape, Iguatu, Campo Grande, Crato, Guarani, Itapipoca, Pacatuba, Tiradantes e União)

- Campeonato Brasileiro Série A (Ceará e Fortaleza)

- Campeonato Brasileiro Série C (Ferroviário)

- Campeonato Brasileiro Série D (Guarany e Floresta)

Atletas elogiam protocolo dos clubes durante treinos

A classe de jogadores representa a "linha de frente" da volta de futebol. Serão eles a maioria exposta a cada partida. Até o momento, os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, a elite do esporte, registraram 95 casos do novo coronavírus em atletas, segundo levantamento do Estadão com base em informações oficiais das próprias equipes.

Neste cenário, 13 são atletas de Ceará e Fortaleza, que já se recuperaram e voltaram aos treinamentos. Em âmbito local, o Ferroviário testou atletas e nove estavam infectados, sem sintomas graves. O protocolo seguido pelos clubes com jogadores que testam positivo é a manutenção de quarentena. O número de casos da Covid-19 entre atletas da Série A equivale a oito times titulares e mais sete reservas.

Desde a volta dos treinos, jogadores de Ceará e Fortaleza têm elogiado a estrutura implantada para garantir a segurança do elenco e os demais funcionários, em entrevistas para os canais oficiais de comunicação dos clubes.

Um dos principais atletas do Alvinegro, Rafael Sobis reforçou a confiança no protocolo seguido no CT da equipe, no Porangabuçu. "É muito louvável o que aconteceu. Com uma pandemia, muitas incertezas, e o clube preparou da melhor forma. Um dos pioneiros no Brasil. Estamos treinando com toda a segurança. Um clube sério se mostra nisso", afirmou.

O lateral-direito do Fortaleza, Tinga, também avaliou positivamente a retomada das atividades no CT Ribamar Bezerra, em Maracanaú. "O pior já passou, principalmente em Fortaleza, onde está diminuindo o número de casos de infectados […] e o clube está nos cuidando muito bem, sendo responsável, isso é o diferencial."

Presidente do Sindicato dos Atletas de Futebol do Estado do Ceará (Safece), Marcos Gaúcho reforça o coro de elogios dos protocolos seguidos por Ceará e Fortaleza para a volta aos treinos, mas se posiciona contra a retomada do calendário de jogos do futebol cearense para o início de julho.

"Não é o momento, apesar da necessidade e da dificuldade. Não é oportuno. Os treinamentos podem começar desde que os protocolos sejam seguidos por todos os clubes. Mas a gente não vê com bons olhos a antecipação", comentou. (Lucas Mota)

Infectologista vê péssimo exemplo caso futebol retorne em meio à pandemia

Infectologista do Hospital São José e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Roberto da Justa é contra a volta dos jogos do futebol no Ceará em meio à pandemia do novo coronavírus.

Para o especialista, o esporte, como setor formador de opinião, precisa dar exemplo para a sociedade e avalia a situação do Estado como delicada, principalmente na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), Norte e Sul.

"O vírus circula intensamente. Acho temerário, mesmo sem torcida. O momento é de manter o distanciamento social. Sei da importância do futebol, o que representa para a economia. Mas é preciso levar a sério a pandemia. O futebol deve ser exemplar. É o olhar de muitos infectologistas, e eu sou contrário (à volta) no mês de julho", comentou.

O professor da UFC ressalta ainda que futebol com presença de torcida está fora de cogitação em 2020. Ele pontua a quantidade de pessoas envolvidas numa partida oficial, além dos times em si, que pode movimentar uma logística de 100 a 300 profissionais.

"É um tipo de aglomeração que traz preocupação porque você tem contato intenso com as pessoas. É um risco de transmissão significativo e, muitas vezes, os assintomáticos, que possam estar entre (membros da) comissão e jogadores, não sabem e podem transmitir", afirma.

O infectologista mostra preocupação com a influência do futebol na sociedade diante do retorno do calendário de jogos. "Você incentivar a prática de jogos acaba incentivando na população o futebol nos bairros. O futebol é exemplo e repercute na sociedade de maneira intensa. Fico receoso dos riscos que existem com os próprios jogadores e membros da comissão e o exemplo que vai dar."

Roberto elogia as medidas do Governo de enfrentamento à pandemia, mas ressalta que, apesar da queda na incidência da Covid-19 em Fortaleza, a situação no Ceará ainda é complicada.

"O cenário é muito grave e preocupante sobre o quantitativo de dados diários, que ainda é grande, e de óbitos também, em especial fora da Capital. Nesses locais (RMF, Norte e Sul), a situação está descontrolada. O sistema de saúde está quase em colapso. É contraditório iniciar o campeonato estadual envolvendo times (Caucaia e Guarany de Sobral) onde o cenário é grave. A contradição é tremenda e um péssimo exemplo para a população."

LUCAS MOTA / O POVO ONLINE

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