Insegurança alimentar preocupa povos indígenas durante quarentena no Ceará

Aldeia Pitaguary de Monguba, em Pacatuba — Foto: Madson Pitaguary

A necessidade de isolamento social em decorrência da pandemia de Covid-19 trouxe uma preocupação a mais aos povos tradicionais no Ceará: a insegurança alimentar. Como alternativa para garantir a sobrevivência da comunidade, líderes resolveram criar campanhas utilizando as redes sociais.

Se por um lado, a recomendação da Fundação Nacional do Índio (Funai) de fechar as aldeias para entrada e saída de pessoas “até que o pico da doença diminua” protege às comunidades, por outro, limita atividades fundamentais para aquisição de renda destas famílias, como turismo e venda artesanal dentro das aldeias.

Na Aldeia Japuara do povo Anacé, em Caucaia, cerca de 30% dos índios atuam no trabalho informal. “A insegurança alimentar é algo que tem se demonstrado muito forte neste momento”, lamenta o Cacique Climério Anacé. “Temos espaços de agricultura coletiva, porém, já estão lotados de agricultores, não cabe mais”.

Com a dificuldade, as lideranças decidiram realizar uma campanha nas redes sociais para arrecadação de mantimentos. O material será doado a cerca de 138 famílias das comunidades de Japuara e Santa Rosa.

Tapebas

Também em Caucaia, os Tapebas enfrentam situação semelhante. “Muitos são agricultores, pescadores, artesãos, marisqueiros, extrativistas. São famílias que estão num cenário de insegurança alimentar muito grande”, explica Weibe Tapeba, advogado e liderança indígena do povo Tabepa.

"Estamos organizando redes de solidariedade, recebendo ajuda de entidades, mas a nossa população é muito grande. A Funai não tem apoiado com absolutamente nada. Fizemos uma solicitação de cestas de alimentos mas até o momento nada de retorno", relata.

Funai

Questionada sobre as ações adotadas, no Ceará, frente à pandemia, a Funai informou em nota que está “se articulando junto a diferentes setores do governo para a aquisição e distribuição de cestas básicas a indígenas em situação de vulnerabilidade”.

Já a Secretaria de Assistência Social de Caucaia disse que foram adquiridos 50 mil kits de alimentação para serem distribuídos a famílias em vulnerabilidade social com filhos na rede pública de ensino. A medida, segundo a Pasta, atenderá, também, às comunidades indígenas.

Por sua vez, a Secretaria de Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos humanos (SPS) do Ceará disse que “está em constante contato com as etnias indígenas e adquirindo cestas básicas para serem entregues a grupos indígenas e outros que estejam com essa necessidade atualmente”.

Segundo a SPS, na última semana, houve a doação de duas toneladas de alimentos, além de itens de vestuário, higiene pessoal e material de limpeza. A Pasta, no entanto, não especificou quantas famílias foram beneficiadas e em quais comunidades.

Plano de Contingência

Para assegurar o bem-estar das comunidades indígenas durante a pandemia, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), do Governo Federal, lançou um Plano de Contingência Indígena. Com base no documento, o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) expediu uma recomendação à Prefeitura de Itapipoca visando a efetivação das orientações.

Segundo o MP, os órgãos responsáveis precisam “prover as comunidades tradicionais com apoio às necessidades básicas, notadamente a segurança alimentar”.

Orientações e prevenção

Aldeia Tremembé da Barra do Mundaú espalhou faixas para avisar que não estão recebendo visitantes — Foto: Samuel Tremembé

Mateus Tremembé, da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, em Itapipoca, avalia que a própria aldeia viu a necessidade de se organizar para evitar a disseminação do vírus. “A gente propôs uma campanha de orientação, onde as lideranças foram nas quatro aldeias dando orientações para evitar a contaminação”.

No local, grande parte das cerca de 140 famílias da comunidade indígena tem a opção de prover a alimentação da agricultura familiar e pesca artesanal. “Temos peixe, crustáceos, a própria criação de galinhas, porcos, cabra, o siri, que é muito forte”, comenta Mateus .

Quarentena

Em Pacatuba, onde vivem aproximadamente 250 famílias na aldeia Pitaguary de Monguba, o professor Madson Pitaguary também observa que o distanciamento social está sendo seguido, o que acompanha a dificuldade em conseguir insumos fora da aldeia, como máscaras de proteção. Apesar disso, a garantia de segurança alimentar ainda é a principal preocupação.

Solidário, ele organizou nas redes sociais uma campanha para arrecadação de alimentos, o que já está trazendo resultados positivos aos que mais precisam. “Algumas pessoas já me procuraram para ajudar com as doações. Estou passando nas casas próximas de quem quer doar e recolhendo o material. Fiz um breve levantamento e creio que já vou conseguir ajudar umas cinco famílias. Não vai ser para o mês todo, mas já é um ajuda, não é?”, finaliza.

RODRIGO RODRIGUES | G1/CE

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.