Famílias de vítimas da Covid-19 realizam missas, homenagens e sepultamentos pela internet no Ceará


Como forma de se adaptar à realidade imposta pelo coronavírus – que impede a realização de velórios das vítimas – familiares e amigos têm realizado velórios virtuais ou participado de missa online em homenagem aos mortos.

O Ceará registrou, até o fim da tarde de ontem (27), 397 mortes de pacientes com Covid-19.

Pela internet, a funerária Ethernus, em Fortaleza, todas as quartas feiras, às 19h, transmite uma missa de sétimo dia. Antes de iniciar a celebração pelo Instagram, todos os falecidos da semana têm seus nomes lidos por um sacerdote. “Antes da epidemia, a gente fazia velórios virtuais, que não fazemos mais no momento. Quando a pessoa falece por Covid-19, já vai direto para o sepultamento, então a família nem passa por aqui. Mas o familiar pode passar o nome do parente para a gente incluir na celebração da missa de quarta-feira", detalha Audisia Barbosa, cerimonialista da Ethernus.

A solicitação de um velório virtual pode ser feita através do site da Comunidade Católica Shalom. Na página, um ícone indica que padres fazem atendimento online durante a pandemia. Ao clicá-lo, pode se solicitar uma reza com a família durante um funeral, ou uma oração por enfermo internado. Para tal, é necessário preencher um formulário disponível no próprio site.

Em seguida, a central de atendimento da Comunidade entra em contato com o familiar para acertar os detalhes a respeito do contato com um sacerdote, que é realizado em aplicativo de reuniões online. Outros parentes e amigos também podem participar virtualmente da cerimônia: basta compartilhar o link disponibilizado pelo sacerdote.

“Um grupo muito pequeno da família vai até o cemitério, no local do sepultamento. Isso não vale só para mortos pela Covid-19, mas para qualquer tipo de funeral. Eles ficam diante da sepultura, mostram o caixão pela câmera do aparelho celular, e o padre e todos os outros familiares e amigos, em suas respectivas casas, podem visualizar”, explica o padre Silvio Scopel.

Segundo ele, o padre lê um trecho da Bíblia e, em seguida, dirige palavras de conforto, carinho e esperança para o grupo. Ele pode ainda orar ou dar uma bênção. “Uma bênção não chega a ser um sacramento, que nós não podemos ministrar virtualmente”, pontua. “Temos vivido experiências muito belas nesse sentido”.

O sacerdote comenta que as cerimônias nesse formato têm um grande alcance, e que já participou de uma celebração fúnebre virtual com cerca de 100 pessoas.

“Nada substitui o presencial. O ser humano é relacional, existe para o outro. Por mais que tenhamos esses meios de nos encontrar, o presencial é o modo supremo do encontro humano. No entanto, não havendo essa possibilidade, o virtual é o que nós dispomos, e o fazemos com todo o nosso coração”, declara.

Homenagens breves

Ritos de velório, missas e cultos foram impedidos no Ceará em decreto governamental do dia 19 de março, com a finalidade de impedir aglomerações, lembra Vicente Jales, vice-presidente do Sindicato dos Empregados em Empresas Funerárias e Cemitérios Particulares do Estado do Ceará (Sintrafce).

Em sepultamentos, a recomendação é de que compareçam no máximo 10 pessoas. “No entanto, as famílias têm a liberdade. É um momento delicado, não vamos impedir as pessoas de entrarem. Mas a nossa prática cotidiana tem mostrado que não têm ido sequer 10 pessoas. Vai, no máximo, um ou dois carros de passeio com quatro pessoas, em média”, detalha o vice-presidente do Sintrafce.

Segundo ele, quem chega para acompanhar os sepultamentos de pacientes mortos por Covid-19 costuma utilizar máscara e trazer álcool em gel, conscientes sobre os meios de se protegerem contra a doença. E as homenagens e despedidas se limitam a uma breve oração ou reza pouco antes do momento do enterro.

G1/CE

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