Pancadaria no "GreNal das Américas"... A quem culpar?

Foto: Reuters
POR THYAGO DONATTO / SPN

Demorou muito, mas a maior rivalidade do futebol brasileiro foi, finalmente, sentida na maior competição do continente, a Libertadores da América.

A enorme expectativa em torno do GreNal 424, apelidado de "GreNal das Américas", se confirmou dentro e fora de campo, antes e após o apito do árbitro. Ligeiramente favorito, o Grêmio, de Renato Portaluppi, se lançou ao ataque no início de cada tempo, mas acabou cedendo, tanto na primeira como na segunda etapa, ao bom jogo do Inter, de Eduardo Coudet, que, nos 90 minutos, foi mais time, teve duas bolas na trave e três ótimas chances de gol e, se por Justiça tivesse de haver um vencedor, esse seria o Colorado.

Escrevi 90 minutos porque, com os acréscimos da primeira etapa, deve ter sido isso mesmo em que prevaleceu o futebol. Já o que ocorreu após os 42 minutos da etapa complementar foi, na verdade, vergonhoso.

Mesmo que se trate do GreNal, um Clássico "brigado", "cascudo", dentre outros adjetivos que mostram não ser um mero "jogo jogado", nem o mais inflamado torcedor colorado ou gremista merecia testemunhar uma selvageria desmedida e sem a menor razão ou necessidade: um lance isolado, fruto de uma disputa na lateral de campo, em que dois atletas (um deles vinha sendo destaque do Grêmio no segundo tempo) simplesmente abdicaram da bola e tal qual dois "intrigados" iniciaram o "fight", que findou em briga generalizada e nada menos que 8 expulsos, sendo 4 de cada lado, dois deles no banco, que sequer entraram no jogo. Prejuízo incalculável e a cereja do bolo literalmente "roubada" por mais de 20 homens querendo matar uns aos outros.

A quem culpar? Os atletas, óbvio... Afinal, eles são pagos para apresentar espetáculo, são homens ágeis, de boa estrutura física, que vivem daquilo, abdicam de de tantas atividades reservadas aos seres normais, trabalham em feriados como se fosse dia útil e, alguns, ainda se preservam de vícios para correr com a bola em busca do gol em duas ou três oportunidades semanais, sujeitos a regimes de concentração e, quase sempre, longas viagens por terra e ar! Sentem na pele, diariamente, o peso dessa profissão, além da pressão de dirigentes e torcedores.

O que os leva a agir assim? Há muitos motivos... A "pilha" do atleta pode ter origem na vida pessoal ou familiar, na dificuldade financeira (é, mesmo com remuneração bem elevada diante do padrão comum, alguns acabam sofrendo para honrar seus compromissos, isso quando não há atrasos no pagamento), na insatisfação com a própria atuação, mas vem também da flauta! "Tocar flauta", no Cone Sul, é a zoação do Sudeste ou o "frescar" do cearense, um comportamento aceito no meio do futebol, mas que na vida social ganha o nome de bullying. Será que Pepê ou Moisés tocaram flauta um para o outro?

Ainda que tenha sido, não era motivo, mas é necessário que nós, pais dos atletas do futuro, busquemos educar nossos craques longe do ambiente danoso causado pela flauta no futebol. Nossas crianças não são obrigadas a serem "zoeiras" uns com os outros e podem transformar o campo no parquinho, no pula-pula, que tanto os agrada... O ringue não me parece apropriado para educar, mas é o ambiente que muitos educadores implantam nas bases e "pilham" os jovens atletas, supostamente preparando-os para o que "enfrentarão no futuro". E já saio em defesa dos educadores, pois não são os culpados, já que essa competividade também é largamente incentivada no meio corporativo e está na cartilha de muitos coaches, que fazem questão de preparar seus coaches para a "guerra".

Por vezes esquecemos que, na atualidade, seja no esporte profissional ou no das grandes corporações, as oportunidades estão mais favoráveis ao equilíbrio emocional que à "faca nos dentes" e as chances de sucesso do "guerreiro" são menores que as do "homem de gelo"... Então, miremos no exemplo (ou mau exemplo) do GreNal para repensar o que plantar na cultura do futebol a fim de colher no futuro, ou você quer ver seu filho, depois de uma excelente partida, perder a cabeça no final do jogo?

E que venha o GreNal 425!

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