Consumo do gás de cozinha continua a cair no Ceará


O consumo do Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) recuou de 543.802 para 510.778 metros cúbicos (m³) nos últimos três anos, no Ceará. A queda de 6% retrata uma economia, neste aspecto, ainda inerte desde a crise de 2016. Uma realidade que aflige, sobretudo, a população mais pobre. Com os preços elevados do botijão e a perda da renda em razão dos altos índices de desemprego ou informalidade, os relatos são de famílias sem muitas alternativas senão utilizar a lenha ou carvão para cozinhar.

Os dados são da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Na comparação de 2018 a 2019, a variação foi de 0,8% para baixo. No Brasil, o consumo caiu 1,4% no período. Embora baixos, os declínios são significativos, porque expõem um quadro contínuo de quem não pode pagar pelo produto.

Para se ter ideia, o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018, mostrou que 721 mil famílias utilizam lenha e carvão para substituir o GLP no Ceará. Na Capital, são 78 mil. Em todo o País, 14 milhões. Se a pesquisa tivesse sido realizada ano passado, o número seria ainda maior.

O professor e coordenador do Laboratório de Estudos da Pobreza (LEP), da Universidade Federal do Ceará (UFC), Vitor Hugo Miro Couto Silva, explica que esse panorama tem resquícios da maior crise da história pós-industrial brasileira, no triênio de 2014 a 2016. "Esse consumo caiu no período da recessão. Depois, deixamos de cair um pouco, mas a economia brasileira não cresceu num ritmo que propiciasse mais geração de emprego".

"A gente tem um período de queda no nível de renda dos brasileiros. As que estavam empregadas eram de maneira informal, levando-as à substituição", conclui. Ele pondera que, com a expectativa de retomada dos postos de trabalho para 2020, essas pessoas podem readquirir os ganhos, desenhando um novo panorama. Mas as altas do GLP dificultam ainda mais. No Ceará, o preço do gás de cozinha continua subindo desde o último mês de dezembro, quando a Petrobras anunciou reajuste de 5% do item em suas refinarias.

Atualmente, o botijão de 13 kg é comercializado no Estado pelo valor médio de R$ 76,36, mas tem variações de R$ 68 a R$ 89, diferença de 30,8%. Na comparação com o fim de dezembro, quando era de R$ 75,60, já houve aumento de 1%. De acordo com o último levantamento da ANP, o botijão mais barato (R$ 68) pode ser encontrado nos municípios do Crato e Juazeiro do Norte, na região do Cariri. Já o mais alto (R$ 89) é observado em Fortaleza.

No Brasil, o atual preço médio do GLP é de R$ 69,98, podendo ser comprado de R$ 50 (Bahia) a R$ 115 (Mato Grosso), oscilação de 130%. Se considerados os valores médios, os três estados maiores precificações são Mato Grosso (R$ 95,88), Roraima (R$ 85,25) e Acre (R$ 84,23). Por outro lado, as médias mais baixas são Rio de Janeiro (R$ 63,33), Bahia (R$ 63,50) e Alagoas (R$ 63,95).

No entanto, o Ceará ainda figura entre os 10 estados mais caros. O consultor na área de Petróleo e Gás, Bruno Iughetti, explica que essa diferença em relação a outras unidades federativas ocorre também pelo custo de logística.

"A única porta de entrada que temos é por meio do modal aquaviário recebido no Porto de Fortaleza. Um dos principais fatores trata-se da disponibilidade de tancagem para receber esse produto, isso faz com que os navios muitas vezes aguardem para que haja espaço para a tancagem, para conseguir descarregar", diz, exemplificando que essa espera pode custa até US$ 15 mil de multa por dia.

Ele acredita que a tendência é estabilidade ou redução do custo neste ano. Isso porque entra em vigor, em março próximo, a nova regra que retira os subsídios para o GLP. Luciano Queirós, presidente do Sindicato dos Revendedores de Gás do Estado do Ceará (Sincegás), reitera que os valores nos pontos de vendas são impactados pelos aumentos da Petrobras, mas projeta estagnação nas oscilações. (Colaborou Raone Saraiva)



BRUNA DAMASCENO / O POVO ONLINE

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