Barco apreendido com traficantes internacionais naufraga no Ceará antes de leilão

Embarcação com mais de uma tonelada de cocaína foi apreendida no litoral cearense em 2005 — Foto: Gustavo Pellizzon/Sistema Verdes Mares

O barco pesqueiro chinês Dong Hee, apreendido pela Polícia Federal (PF) junto de uma carga de mais de uma tonelada de cocaína em 26 de setembro de 2005, iria a leilão, mas naufragou na costa de Fortaleza. O fato foi descoberto pela Justiça Federal no Ceará apenas neste ano, quando o oficial de Justiça se dirigiu ao local em que a embarcação deveria estar apreendida e não a localizou.

Já os traficantes presos na época com a carga -- oriundos da Colômbia, Japão e China -- estavam em prisão domiciliar e fugiram. Atualmente eles são considerados foragidos.

Apesar de a descoberta ter ocorrido em 2019, o oficial de Justiça informou que o naufrágio aconteceu há mais de cinco anos. As informações foram confirmadas pela Justiça Federal no Ceará.

A 11ª Vara Federal decretou perda do bem em favor da União em 9 de junho de 2006. Quase 11 anos depois, a Justiça comunicou à Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad) sobre a possibilidade de liberação do barco para realização do leilão, em 29 de março de 2017. Mas o oficial de Justiça não retornou com a informação que as autoridades aguardavam.

Apreensão da droga
O barco Dong Hee saiu de Suriname com destino a Senegal ou África do Sul, no continente africano. Ao passar por perto do Ceará, foi interceptado pela Polícia Federal. Quatorze anos depois de uma das maiores apreensões de drogas da história do Estado, os quatro estrangeiros que estavam na embarcação são considerados foragidos da Justiça.

O colombiano Eduardo Santana Garzon, o sul-coreano Seong Hee Nam e os chineses Kwang Chul Lim e Young Man Jong foram acusados pelo Ministério Público Federal (MPF) por tráfico internacional de drogas. Conforme a denúncia, em 26 de setembro de 2005, o grupo estava a bordo do barco pesqueiro Dong Hee, em alto-mar, a 18 km de distância do Porto do Mucuripe, em Fortaleza. A defesa dos foragidos não foi localizada.

Os policiais federais encontraram 1.131,55 kg de cocaína no porão da casa de máquinas, em um compartimento lacrado com 41 parafusos. No primeiro momento, apenas Eduardo Garzon foi preso pelo tráfico de drogas.

O colombiano confessou que, próximo ao Suriname, houve uma negociação entre os tripulantes do Dong Hee e de um barco menor e ficou acertado o transporte da droga, que foi arremessada de um avião na água. Garzon deixou o barco menor e ingressou na outra embarcação para acompanhar o transporte do ilícito até a África, trabalho pelo qual receberia US$ 10 mil, segundo o MPF.

Reviravolta e condenação
Já o comandante do barco, o sul-coreano Seong Nam, e os auxiliares, os chineses Kwang Lim e Young Jong, afirmaram na época que foram contratados para transportar outra mercadoria. Somente no meio da viagem descobriram que a carga se tratava de cocaína. Em alto-mar, eles entraram em contato com a embaixada da Coreia do Sul na Venezuela.

Os chineses foram liberados, mas precisaram ficar no Brasil para aguardar os procedimentos de deportação, pois estavam sem documentos pessoais; o coreano também foi liberado e, com ajuda da embaixada nacional, voltou ao país de origem.

A Polícia Federal decidiu realizar um novo interrogatório aos asiáticos. O sul-coreano não compareceu e, desde então, passou a ser procurado pelas autoridades. Já os chineses voltaram atrás na história e revelaram conhecimento do transporte de cocaína e participação do sul-coreano.

A 11ª Vara da Justiça Federal no Ceará, em decisão de 9 de junho de 2006, considerou que os réus eram "traficantes experientes e sagazes". A Justiça condenou o colombiano Eduardo Garzon a nove anos e nove meses de prisão; e os chineses Kwang Lim e Young Jong, a 14 anos e sete meses de prisão. Já o processo contra o sul-coreano Seong Nam foi desmembrado, em razão de o réu não ter se apresentado à Justiça.

Estrangeiros foragidos
Garzon está atualmente com 62 anos e, segundo o processo que tramita na Justiça Estadual, é considerado foragido desde 18 de julho de 2008. Ele esteve preso no Instituto Penal Professor Olavo Oliveira II (IPPOO II), em Itaitinga, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Mas, ao progredir para o regime semiaberto no dia 15 de abril, ele fugiu.

O colombiano ainda tem seis anos, seis meses e quatorze dias de pena para cumprir. Em 12 de setembro de 2018, a Justiça Federal determinou a inclusão de Eduardo Santana Garzon no Sistema Nacional de Procurados e Impedidos (SNPI), da Polícia Federal, e no Canal de Difusão Vermelha da Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal).

Os dois chineses também estiveram presos no IPPOO II e aproveitaram a progressão para o regime semiaberto para fugir. Lim, atualmente com 46 anos, deixou de cumprir 4 anos, 7 meses e 15 dias da pena. E Jong, com 65 anos, deve o cumprimento de oito anos e sete meses da pena.

Já o sul-coreano Seong Nam, aos 61 anos, segue como procurado das autoridades. Em 6 de março de 2012, a Justiça Federal no Ceará solicitou cooperação da Justiça da Coreia do Sul para cumprir o mandado, mas não recebeu retorno.

MESSIAS BORGES | G1/CE

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