Grendene apresenta queda de produção no primeiro trimestre de 2019

O setor esperava uma recuperação no início deste ano, o que não se concretizou, e os resultados ficaram abaixo da expectativa / Foto: Antonio Rodrigues
Um dos mais importantes setores da economia cearense, a indústria calçadista vem sofrendo nos últimos anos tanto pelo enfraquecimento do mercado interno como pela concorrência cada vez mais forte no mercado internacional. Maior exportador de pares de calçados do Brasil, o Ceará viu o volume das exportações cair 34,3%, de 2010 a 2018. Nesse período, o valor das exportações passou de US$ 403,2 milhões para US$ 264,5 milhões, pior resultado observado desde 2006 (US$ 237,3 milhões).

O setor esperava uma recuperação no início deste ano, o que não se concretizou, e os resultados ficaram abaixo da expectativa. A Grendene, maior fabricante de calçados do Brasil, com unidades fabris em Fortaleza, Crato e Sobral (a maior planta da empresa no País), classificou como "péssimo" o início do ano, anunciando a queda de 29,5% da produção em relatório de resultados do primeiro trimestre.

"A queda ocorreu tanto no mercado interno (26,6%), quanto no mercado externo (37,0%)", disse a empresa em comunicado de 25 de abril.

"Desde outubro do ano passado, houve uma leve recuperação, mas o mercado ainda está muito fraco", diz Heitor Klein, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). "Hoje, o câmbio ainda está ajudando um pouco nas exportações, mas o primeiro trimestre não foi tão forte ante o do ano passado".

De janeiro a março, a produção de calçados no Ceará caiu 2,6%. No Nordeste, a retração foi de 3,4% e no País também 2,6%, segundo a pesquisa industrial mensal de produção física do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).



"O Ceará se destaca como o principal polo do País no segmento de chinelos e sandálias praianas. Neste momento, em especial, a demanda por esses produtos está bastante deprimida no Brasil", avalia Klein. "Além disso, esse fenômeno que estamos observando vem da falta de competitividade, já que o preço do calçado brasileiro está muito alto".

No mercado externo, de acordo com dados do Ministério da Economia, de janeiro a abril, o valor do par avançou 7,6% no Estado, de US$ 5,33, para US$ 5,74, enquanto a média nacional caiu 8,7%, de US$ 8,53 para US$ 7,78. Ao mesmo tempo, no primeiro quadrimestre, o mercado cearense ainda avançou 5,9% em vendas, abaixo d a média do País, que saltou 9,4%.

Exportações

Desde 2010, ano em que o Estado atingiu o pico histórico de exportações, foram registradas seis quedas anuais nas vendas ao exterior e apenas duas altas. Apesar dessa retração, a indústria calçadista cearense, que vende para 113 países, permaneceu responsável por um quarto do valor exportado pelo País, atrás apenas do Rio Grande do Sul, que exporta quase metade do valor vendido no mercado internacional, em dólar.

Para o economista e consultor Alcântara Macedo, a manutenção da participação cearense em torno de 25% das exportações de calçados, de 2010 a 2018, mostra a força da indústria local, mesmo com a queda da produção observada no período. "Desde o fim da década de 1990, quando a China e outros países do sudeste asiático começaram a produzir esse produto, a competitividade aumentou muito no mercado internacional. E nos últimos anos, o mercado interno, em todas as áreas, está recessivo, de modo que todas as áreas da indústria leve estão em um momento difícil", diz Macedo, que trabalhou na captação das primeiras unidades da Grendene para o Ceará, na década de 1990.

Empregos

Setor que mais emprega no Estado, a queda da produção da indústria calçadista acende um sinal de alerta no mercado de trabalho, principalmente nos polos produtores do interior. "A Grendene, que é a maior empregadora do Ceará depois do Governo do Estado, tem uma contribuição muito grande em polos como o de Sobral. E a crise que está se alongando muito. Estão todos esperando uma relação de confiança maior", diz Macedo.

Mesmo sem perder participação na produção nacional, os impactos já são sentidos na geração de empregos. No primeiro trimestre, o setor, que emprega cerca de 55 mil pessoas no Ceará, perdeu 1,7% das vagas ante igual período de 2018. No Brasil, onde o setor gera 285 mil vagas, a queda foi de 3,7%, segundo o Cadastro de Empregados e Desempregados (Caged).

Expectativa

Em seu comunicado, a Grendene afirma que o principal problema enfrentado pela empresa no primeiro trimestre foi a falta de vendas "de uma forma praticamente generalizada entre marcas, modelos e geografias". Além disso, a companhia ressalta que, em vez de uma queda tão acentuada no mercado interno, era esperado um início de recuperação, o que não deve mais ocorrer neste ano.

"Diante da realidade observada no primeiro trimestre de 2019, não podemos mais falar em recuperação de consumo de calçados no mercado brasileiro para este ano, permanecendo completamente indefinido como a economia, o consumo e o consumidor devem se comportar. A tão esperada recuperação ainda não começou e pode nem acontecer este ano", disse a Grendene no relatório.

Apesar do cenário desfavorável, Heitor Klein diz que a expectativa para o médio e longo prazo é boa. "Hoje não está apresentando essa sinalização de forma muito clara, mas é o que pode se esperar, uma vez que as reformas estruturais venham a ser implementadas", ele diz. "Os investimentos em infraestrutura, que são esperados, geram empregos, que geram renda e que geram consumo".

Klein acredita que tão logo haja um incremento nas vendas do varejo, o setor de calçados responderá rapidamente com uma maior oferta de empregos. "O setor tem uma força exportadora muito forte, temos mais de 160 países compradores que não deixaram de ser nossos clientes, apenas as quantidades é que estão deprimidas", diz Klein.

Mercado produtor

Considerando o número de pares, o Ceará é o principal produtor do Brasil, com 27,4% de participação, seguido pelo Rio Grande do Sul (20,1%) e Paraíba (15,8%).

Maior fabricante de calçados do Brasil, com unidades fabris em Fortaleza, Crato e Sobral, a Grendene classificou como "péssimo" o início do ano, tanto no mercado interno quanto externo.

BRUNO CABRAL / DIÁRIO DO NORDESTE

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