Disputas internas no interior expõem clima de 'racha' no PSL Ceará

Foto: Saulo Roberto
Saltar de nanico para um dos maiores partidos do Brasil, como aconteceu com o PSL, após a eleição do presidente Jair Bolsonaro, tem um preço: virar alvo de disputa. Enquanto no plano nacional brigas internas vez ou outra vêm à tona, no Ceará, a legenda comandada pelo deputado federal Heitor Freire escancara conflitos pela formação dos diretórios municipais. Em meio às queixas com a cúpula estadual do PSL, filiados e apoiadores vivem em clima de "racha" dentro do partido, incluindo até ameaça de desfiliação.

As divergências entre lideranças do PSL no Ceará ficaram evidentes na semana passada, quando o deputado estadual, André Fernandes, presidente do partido em Fortaleza, bateu de frente, publicamente, com o presidente estadual do PSL, Heitor Freire, por conta das alianças políticas feitas pela legenda em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).

Até então, o partido era presidido naquele Município, o segundo maior colégio eleitoral do Ceará, por Mauro Cezar Cordeiro Lima. Na prática, porém, quem controlava a sigla era o vice-presidente municipal, Júlio Aquino Junior, mais conhecido como Juninho. Indicados por Freire, os dois são ligados ao atual prefeito de Caucaia, Naumi Amorim (PMB) - Juninho, inclusive, é subsecretário municipal de Infraestrutura. Essas ligações do partido com a gestão municipal de Caucaia são motivo de desagrado a militantes.

Uma das razões é que o prefeito é aliado do governador Camilo Santana (PT), que faz oposição ao presidente Jair Bolsonaro. O assessor do movimento Direita Caucaia, Abraão Martins, diz que boa parte do grupo não aceitou a aliança e o partido se dividiu. "99,9% do grupo não aceitou fazer aliança com o prefeito. Eu dei suporte, indiretamente, para o PSL, então eu me sinto no direito de cobrar que esses caras façam um trabalho coerente", reclamou.

Em público

Pressionado pelas críticas, André Fernandes disparou, publicamente, que discordava "totalmente" de Heitor Freire sobre a formação da comissão provisória do partido em Caucaia, tanto que a cúpula estadual do PSL decidiu destituir o então presidente. A decisão, contudo, ainda não consta no site do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-CE). Apesar da repercussão negativa, Freire pretende manter Juninho à frente do partido lá.

Interior

No Ceará, o PSL não enfrenta problemas só em Caucaia. Em Tamboril, na Região dos Inhamuns, militantes de direita estão em pé de guerra com o presidente do partido no Município, o vereador Rudnei Soares, que é aliado do prefeito, Pedro Calisto, do MDB. A tensão aumentou depois que o dirigente afirmou na Câmara Municipal que o PSL vai apoiar a reeleição do gestor e do vice, Jarder Cedro, do PT.

Integrante do movimento Direita Tamboril e filiada ao PSL, Aline Pereira argumenta que o presidente Jair Bolsonaro não aceita ligações do partido com legendas de esquerda e critica o diretório estadual por não resolver a situação. "Essas ligações acontecem sobre as barbas do diretório estadual. O que nós vemos é a manutenção da velha política, então acredito que deva ser feito algo para que chegue até o PSL nacional, porque o estadual nada tem feito". Aline ameaça até rever a filiação.

André Fernandes, entretanto, garante que a comissão provisória de Tamboril também será desmanchada. Aliás, em Iguatu, terra natal do parlamentar, houve um incômodo entre ele e Heitor Freire, após a indicação do empresário Kaoma Pereira para o comando municipal do partido. Kaoma é ligado ao ex-prefeito Agenor Neto (MDB) hoje deputado estadual e adversário do grupo político de André. A comissão provisória da legenda em Iguatu, porém, ainda não foi instalada.

Já em Morada Nova, simpatizantes de direita disputam o comando do PSL municipal. O secretário de tributação da Prefeitura, Natan Andrade, que militou na campanha eleitoral do partido no Estado, se desentendeu com Heitor Freire. Ele é aliado do prefeito da cidade, Vanderley Nogueira, do PT, justamente o motivo das reclamações de vários membros do PSL.

Rachas

Mesmo o movimento Direita Ceará, liderado pelo deputado Heitor Freire, expõe rachas internos. Uma das fundadoras do grupo, Perpétua Aguiar, que trabalhou junto com ele nas eleições em 2018, rompeu com o parlamentar eleito após desavenças. Para fazer oposição ao grupo de Heitor, Perpétua fundou o Conexão Patriota, que já tem cerca de 180 integrantes, e promete disputar as eleições do ano que vem.

"Houve essa divisão dentro do partido e a gente que é de direita quer que seja uma nova política, dentro do que a gente defende. Se aliar a Ferreira Gomes ou outros partidos seria inadmissível. Tem várias pessoas do nosso grupo que querem se candidatar a vereador e querem que eu me candidate", revelou.

Sem crise

Apesar dos problemas, André Fernandes nega haver uma crise no partido. Para o deputado, os conflitos internos ocorrem mais por questões pessoais. "Esses problemas a gente está lutando para resolver. Tem que levar em consideração que são 184 municípios, em um Estado grande, e é difícil a escolha das lideranças, porque muita gente que, antes, não se dizia Bolsonaro, hoje se apresenta como Bolsonaro, como conservador, e isso acaba confundindo a gente".

Apesar das divergências com Heitor Freire, Fernandes minimiza episódios recentes e diz que a relação com o dirigente é ótima. "A gente conversa, tem uma ideia dele, tem uma ideia minha e a gente vê por que é melhor isso, por que é melhor aquilo. Alguma vez que acontecer alguma denúncia venho a público e falo, eu devo prestação ao meu público, mas a minha relação com ele é excelente".

Outro lado

A reportagem procurou o presidente estadual do PSL, deputado Heitor Freire, para uma entrevista sobre as questões colocadas por filiados e apoiadores, mas ele se pronunciou apenas por nota. O dirigente estadual nega haver desgaste com André Fernandes e afirma que os dois "seguem a mesma linha de pensamento". Freire enfatizou ainda que o partido está unido e que o que está havendo são "ruídos".

"O PSL e o nosso presidente Bolsonaro valorizam muito a liberdade de expressão e ela faz parte do debate saudável. É impossível saber de tudo em um Estado com tantos municípios, então a cooperação com os eleitores atentos é saudável para o partido", disse. "O PSL CE está unido e em processo de estruturação. Opositores e interessados no partido têm fomentado ruídos levianos, mas não lograrão êxito na tentativa de nos desunir. O partido seguirá unido e alinhado com Bolsonaro", completou.

Comissões provisórias no CE

18 Municípios:

- Cariré
- Cascavel
- Caucaia
- Crato
- Fortaleza
- Independência
- Iracema
- Itapipoca
- Itarema
- Maracanaú
- Mauriti
- Morrinhos
- Pacajus
- Palmácia
- Quixelô
- Tamboril
- Tianguá
- Várzea Alegre

Após divisões:

O diretório estadual do PSL decidiu destituir as comissões provisórias de Caucaia e Tamboril, mas as mudanças ainda não constam como oficializadas no site do TRE-CE.

LETÍCIA LIMA / DIÁRIO DO NORDESTE

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