No Sisu 2019, 17 mil cotistas teriam nota suficiente para passar na ampla concorrência

Natascha de Souza, de Porto Alegre, diz que sua intenção inicial era concorrer à vaga de medicina na UFCSPA pela ampla concorrência do Sisu, mas desistiu no último dia porque a nota de corte estava muito apertada — Foto: Arquivo pessoal/Natascha Tortorelli
No Sistema de Seleção Unificada (Sisu) do primeiro semestre de 2019, cerca de 113 mil estudantes foram selecionados para uma vaga na graduação por meio de cotas e 17.271 deles tiveram nota alta o suficiente para passarem também nas vagas de ampla concorrência do mesmo curso e universidade. Isso quer dizer que 15% das vagas oferecidas para cotas foram preenchidas por candidatos que também passariam na ampla concorrência.

Os dados são de um levantamento inédito feito pelo G1 a partir do resultado divulgado no site do Sisu. Entenda o sistema de cotas:



  • O Sisu 2019 teve mais de 130 modalidades de cotas, entre as reservas de vagas por raça ou cor, para alunos de escola pública, de família de baixa renda ou com deficiência ou necessidades especiais. Os candidatos aprovados pelas cotas precisam comprovar que cumprem os requisitos para garantir a matrícula.
  • Já a ampla concorrência, ou seja, dos não-cotistas, reuniu quase metade de todas as vagas às quais pode concorrer qualquer estudante que tivesse feito o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2018 desde que não tenha zerado a redação nem tirado notas abaixo do valor mínimo exigido em certos cursos.

  • A análise comparou a nota mais baixa entre os aprovados por alguma modalidade de cotas e a nota mais baixa entre os aprovados pela ampla concorrência de cada um dos 6.228 cursos. Essas notas podem ser consideradas a "nota de corte" para alguém conseguir a vaga naquele curso.

    Resultado da chamada única
    A análise levou em consideração todos os mais de 228.775 aprovados em 28 de janeiro, o que significa que, no primeiro resultado, só 3% das 235.461 vagas em disputa não tiveram candidatos selecionados.

    Entre os motivos para a existência de vagas remanescentes está a falta de inscritos por desinteresse ou por causa dos requisitos, como nota mínima no Enem ou, principalmente, as condições sociais, financeiras ou raciais impostas para concorrer a uma cota.

    Na inscrição, cada estudante pode escolher até duas opções de curso. Após a divulgação do primeiro resultado, os aprovados têm um prazo para efetuar a matrícula. Os candidatos que não foram aprovados em nenhuma das duas opções podem aderir à lista de espera para serem convocados para as vagas remanescentes em chamadas feitas pelas próprias instituições.

    Sisu 2019: vagas oferecidas x vagas preenchidas
    97% das vagas oferecidas foram preenchidas na divulgação do resultado, em 28/01
    235.461235.461228.775228.775115.341115.341113.434113.434TOTAL de vagasTOTAL de aprovadosAMPLA CONCORRÊNCIACOTAS050k100k150k200k250k

    TOTAL de vagas
    235.461
    Fonte: Levantamento do G1 com base nos dados divulgados no site do Sisu

    A eficácia das cotas
    Segundo o professor João Feres Júnior, coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), os dados do levantamento comprovam o efeito positivo da política de cotas na democratização do acesso ao ensino superior.

    Ele explica que o fato de 85% dos estudantes cotistas terem tido nota mais baixa que os aprovados na ampla concorrência não é um indicativo de que são alunos piores.

    • Em uma comparação entre as nota de corte das modalidades de cota e da ampla concorrência de um mesmo curso, a diferença média mostra que os cotistas aprovados na última colocação tiveram pontuação 18% menor que os não-cotistas.
    • Uma análise dos 6.228 cursos mostra que, em 3.617 deles, a nota mínima da ampla concorrência foi até 20% mais alta que a nota de corte dos cotistas.
    • Essa diferença só foi maior do que 50% em 23 cursos.
    • Já em 32 cursos a nota mínima das cotas foi mais alta que a do último colocado na ampla concorrência. Ou seja, todos os cotistas aprovados teriam sido selecionados também pela ampla concorrência.

    Segundo ele, uma diferença pequena entre as notas revelam "a virtude da cota", por ajudar no acesso à universidades os estudantes que são bem preparados, mas ficavam de fora da universidade pública por causa da alta concorrência. "A virtude da cota continua valendo, porque essas pessoas não seriam incluídas", diz ele.

    Disputa acirrada
    Já considerando apenas os 17.271 cotistas com nota alta o suficiente para entrar pela ampla concorrência, a disputa pela aprovação como não-cotista teria sido acirrada. A diferença entre a nota deles e a nota do último colocado da ampla concorrência, em 7.821 casos, não passou de dez pontos.

    Segundo Feres Júnior, o fato de eles terem tido condição de passar como não-cotistas não significa que eles tiraram uma vaga de um cotista. "Mais do que um direito, essa é uma consequência natural da metodologia. As pessoas não sabem mais ou menos a nota de corte, elas exercem seu direito [à cota]."

    No caso das vagas em medicina, só 22 cotistas aprovados conseguiriam passar pela ampla concorrência.

    No caso deles, a maior diferença entre a nota do cotista e a do último colocado não-cotista foi 8,64. A diferença média nos 22 casos foi de apenas 2,81 pontos.

    A gaúcha Natascha de Souza, d 22 anos, está nesse grupo. Uma entre os novos calouros de medicina da Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), a jovem teve nota de 800,6 no Sisu e ficou na terceira colocação entre as 18 vagas para estudantes que, independentemente da renda, tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas.

    Ela também teria se encaixado entre os 50 candidatos aprovados na ampla concorrência, porque sua nota superava a do último colocado nessa modalidade. Porém, a diferença foi pequena, de apenas 1,18 ponto.

    Opção inicial pela ampla concorrência
    Ao G1, a estudante, que se preparou durante dois anos para o vestibular de medicina após a morte da avó, disse que seu objetivo inicial era entrar pela ampla concorrência.

    "Eu passei quase todo o período de inscrição do Sisu tentando vaga pela ampla concorrência, pois sabia que tinha atingido uma boa nota e não queria tirar uma vaga de cota, mas como o corte foi subindo e a UFCSPA era minha primeira opção, resolvi não arriscar", explicou Natascha, que estudou em um colégio militar em Porto Alegre e terminou o ensino médio em 2013.

    Naquela época, ela decidiu estudar engenharia. "Eu sempre tive uma afinidade muito grande com exatas e gostava das disciplinas do curso, porém a falta de disciplinas práticas aliada a minha percepção do que seria a profissão me fez perceber que não era o que eu gostaria de fazer para o resto da minha vida", disse ela, que foi aprovada no Sisu na segunda tentativa.

    Depois que a avó morreu, Natascha decidiu retomar uma antiga ideia de ser médica. "A principal razão da escolha é a resposta clichê de que quero fazer a diferença", explicou. "Senti a maior sensação de impotência possível e percebi que eu não conseguiria viver com ela."

    G1

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