Crônica de quinta: Câncer, a palavra não pronunciada

Foto: Divulgação/INCA 
Na fila de espera para o atendimento ninguém, entre os pacientes, sabe seu nome. Parece que o diagnóstico vira nome, logo outras informações são acrescentadas idade e qual cidade de origem. 
São pacientes que buscam calma na perninha que balança, impaciente, no debulhado das contas do rosário, no joguinho do celular, e o mais difícil e de alguma forma reconfortante, a escuta da história de vida dessas pessoas. "Há dois anos que estou em tratamento. Primeiro eu fiz cirurgia. Depois passei pra quimioterapia e radioterapia. Hoje estou fazendo quimio novamente." Paciente 1, homem, diagnosticado com câncer no esôfago, 35 anos, Fortaleza. E continua. "Perdi minhas duas irmãs. E também meu pai. Já tenho o histórico, mas a gente nunca espera que isso vai acontecer com a gente". Ele usa um boné para esconder a cabeça sem os cabelos, efeitos da forte medicação que passa. A sua pele está amarelada, também perdeu alguns quilos e os olhos são fundos. "Você me parece muito satisfeito, alegre.." eu falo. "Eu tenho escolha, moça? Aliás, tenho. Ou eu passo por esse tratamento triste e fazendo minha família sofrer. Ou eu passo feliz, conseguindo vencer um dia de cada vez, eu escolhi a última opção, moça. E tá tudo bem". 
No Ceará a estimativa é que cerca de 320 novos casos de câncer no esôfago surjam anualmente. Segundo dados do Instituo Nacional de Câncer (INCA) 2018, a maior incidência tem sido o câncer de próstata em pacientes do sexo masculino, logo em seguida vem o da mama, 2200 novos casos. 
Se câncer é a palavra que não é dita, liberdade é a palavra vivida. É a vida que exige metáforas e encontrar forças e continuar a viver. Talvez pacientes só precisem da escuta, e, em muitos casos, essa doença não deve ser diagnóstico de morte, mas de luta e coragem. Eu sei, também estaria assustada, mas não desista. Nunca.


Gisélia Silveira 

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