Crônica de quinta: Consequências do verbo amar

Foto: Ilustração
O meu vizinho do lado passa o dia balbuciando. O único jeito que ele tem de se comunicar. 
Eu ouço uma voz femina: "ooooii meu amor!" com uma entonação forte, alegre e amorosa. 
E um pequeno diálogo é feito:
"Vamos tomar banho?"
"Tá sujo não?" "Ô coisa linda, mô deus".
Eu fico imaginando como ela consegue entender. Será o olhar? A experiência de já conhecer? 
O afeto dela por ele me afeta. Não sei seus nomes, nem o grau de parentesco entre eles, muito menos idade. Mas penso como o amor é provado na inutilidade. 
É gente que só consegue SER quando se dá o sentido a sua existência, e talvez este seja o dela: tornar o dia mais suportável para aquele que só espera os dias passarem. 
Neste mundo onde a pressa, apressa tanto a gente, ter alguém que nos ame quando a gente não serve mais, é um ato de resistência. E que talvez, a recompensa da moça seja um sorriso banguelo no final do dia. 

Gisélia Silveira

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.