Ceará tem primeiro grupo de teatro formado somente por cegos

Foto: Evilazio Bezerra 
Foi lançado na última quinta-feira, 3, no Instituto dos Cegos, o Grupo Olho Mágico, primeira e única equipe de teatro formado apenas por cegos no Ceará. O projeto é uma parceria entre o Instituto Vila Cidadã (IVC) e a Sociedade de Assistência aos Cegos (SAC), e tem como proposta o fortalecimento da inclusão social e cultural de pessoas com deficiência visual.

Com faixa etária entre 27 e 34 anos, os 15 integrantes têm se reunido três vezes por semana desde o início de sua formação, em fevereiro deste ano, para ter aulas de linguagem corporal e exercícios vocais e de improvisação. O objetivo da equipe é se apresentar publicamente ainda em outubro deste ano, com o espetáculo “Vila Paradiso”. No enredo, pessoas que vivem situações do cotidiano. “É uma vila onde tudo dá certo, onde o bem se sobrepõe ao mal, então é uma peça com uma miscelânea de fatos que fazem parte da convivência do dia a dia”, conta Marcos Queiroz, diretor do Olho Mágico.

De acordo com Marcos, as parcerias pretendem investir na transformação do atual auditório do Instituto dos Cegos no Teatro Waldo Pessoa. Mantendo a arquitetura clássica do prédio, o teatro passará por uma reforma de acessibilidade, como inserção de um palco com piso tátil e um display para leitura do roteiro dos espetáculos. “Nós vamos trabalhar esse teatro não só para o deficiente visual, mas também para o deficiente auditivo”, explica Marcos. O início da reforma está previsto para o próximo ano. Além da reforma, pretende-se investir na compra de óculos adaptados para toda a equipe do Olho Mágico. Os óculos possuem uma câmera que traduz a imagem em áudio, e facilitariam a leitura dos roteiros. O investimento seria de R$ 15.000 por unidade.

Uma das professores do grupo, Nádia Fabrici, fala sobre a experiência de trabalhar com a equipe. “Tudo que eu faço aqui, seja um aquecimento vocal, um alongamento, uma marcação de cena, eu fecho os olhos e faço sozinha em casa para ver como eu preciso comunicar isso para eles”, conta a professora. “Eles têm outro tipo de aprendizado, que é o aprendizado da imaginação. Eles têm que imaginar tudo, e aí começam a vir impulsos internos, lembranças… É outro jeito de ver, que não é o “ver” do “enxergar”, é uma visão que você tem que conhecer em vez de reconhecer”, completa.

A professora conta, também, que a intenção é que o grupo se apresente em vários lugares da cidade. “Nós vamos enfrentar muitas dificuldades, mas levá-los para outros teatros fará com que esses teatros repensem a capacidade que possuem de receber certos tipos de atores”, explana. A equipe possui um piso tátil móvel que os acompanharão nas futuras apresentações.

Uma das integrantes do grupo, Adriana Loiola, perdeu a visão há quatro anos. Ela conta que a arte a ajudou a superar a depressão e mudou a sua vida. Ela conta que adora as aulas semanais da equipe. “O teatro nos ajuda a abrir o coração, a vida da pessoa muda muito. É um estímulo não só a quem não enxerga, mas a quem enxerga também, elas ficam sensibilizadas e motivadas, e a gente também sente isso, porque nós temos fome da fome do teatro, e o teatro faz parte do nosso show”, conta a atriz.

Ao fim da programação no Instituto dos Cegos, a equipe cantou “Vilarejo”, música de Marisa Monte e Arnaldo Antunes.

O Povo
 

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