Júri popular condena matadores de Dandara

Foto: Fábio Lima 
Depois de mais de 15 horas de julgamento, um tribunal do júri popular considerou culpados os primeiros cinco réus responsáveis pela tortura e execução de Dandara Kethlen. Os jurados, cinco mulheres e dois homens, concordaram, ontem no Fórum Clóvis Beviláqua, com a tese da acusação que sustentou que o assassinato da travesti, ocorrido em 15/2/2017 em Fortaleza, foi decorrente de um “concurso de agentes” e motivado também pela transfobia. A juíza Danielle Pontes, da 1ª Vara do Júri, aplicou penas por crime de homicídio triplamente qualificado para quatro réus e duplamente qualificado para Isaias da Silva.

Francisco José Monteiro de Oliveira, conhecido por o Chupa Cabra, foi condenado a 21 anos de prisão. Ele confessou que deu dois tiros em Dandara. Jean Victor Silva Oliveira, Rafael da Silva Paiva e Francisco Gabriel Campos dos Reis, o Didi ou Gigia, pegaram 16 anos. Isaías da Silva Camurça o Zazá, recebeu 14 anos e seis meses. Todos em regime fechado. Eles não poderão apelar em liberdade.

De acordo com o promotor de Justiça Marcus Renan, “todos os criminosos que participaram do espancamento à retirada da vida de Dandara, cada um a sua maneira, concorreram para o crime de homicídio na medida culpabilidade de cada um” .

Nos debates entre acusação e defesa, Renan argumentou que “os responsáveis pela morte de Dandara não eram apenas os dois (um adolescente e Chupa Cabra) que atiraram contra a vítima indefesa. É tão culpado o que só deu um chute quanto o que desferiu um tiro”.

O assassinato da filha da aposentada Francisca Ferreira Vasconcelos, 75, de acordo com o promotor de Justiça, começou a se desenhar quando Dandara foi levada do Conjunto Ceará para o Bom Jardim. A partir daí, se juntarem pelo menos 12 pessoas para promover tortura, escárnio, linchamento e a eliminação dela. “Inventaram que ela havia roubado no bairro e, pela lei do tráfico e das facções, teria sido condenada à morte. Até hoje não apareceu uma única vítima do roubo nem o objeto roubado”, afirma.

Marcus Renan, acompanhado do advogado Hélio Leitão - o assistente da acusação, criticou a tese usada por Pedro Henrique Bezerra para defender Francisco Monteiro, o Chupa Cabra.

O advogado afirmou que seu cliente não havia matado Dandara, mesmo tendo disparado duas vezes contra a cabeça da vítima. Os tiros de um revólver 38 foram dados após a travesti ser transportada, ainda com vida, em um carro de mão para um terreno.

Francisco Monteiro confessou que deu o segundo e o terceiro tiro. Disse que o corpo de Dandara não havia esboçado nenhuma reação. Ela, de acordo com o réu, teria morrido em decorrência do “primeiro tiro dado por um adolescente ou por causa de uma pedrada desfechada por outro adolescente contra cabeça dela”.

O advogado Pedro Henrique Bezerra lançou mão da tese do “crime impossível”, pois seu cliente teria atirado em quem já estava morto. “Não quero colocar uma aureola na cabeça do Francisco, mas peço Justiça”.

O promotor Marcus Renan usou o laudo cadavérico para se contrapor à tese da defesa de Chupa Cabra. “Não é ironia, mas o senhor (réu) é legista?

Checou o pulso de Dandara? Mediu a respiração da vítima? Por favor, o laudo cadavérico é taxativo: a causa morte de Dandara aponta traumatismo craniano decorrente de perfurações de projéteis de arma de fogo”, rebateu.

Francisco Firmo Barreto, defensor público dos réus Jean Victor e Rafael da Silva, pediu aos sete jurados que não condenassem os dois por homicídio triplamente qualificado. De acordo com ele, as pancadas dadas por Jean com um pedaço de madeira em Dandara; e o chute desferido por Rafael na cara da travesti não teriam provocado a morte dela.

A defensora pública Carolina Reis, representante de Gabriel Campos, também foi pelo mesmo caminho. A morte, segundo o laudo, teria acontecido por causa dos tiros disparador por um adolescente e por Chupa Cabra. “E não as chineladas dadas por Gabriel”.

O advogado Paulo Torres, de Isaías da Silva, alegou que “Zazá” não havia tocado em Dandara. É dele a voz, gravada no vídeo que mostra a parte da tortura, e que diz: “A imundiça tá de calcinha e tudo, a pirangage...”. 

O Povo 

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