Crônica de quinta: Sobral, a cidade que acolhe

Foto: Gisélia Silveira 
E foi com uma mala de mão e uma caixa cheia de papéis, livros e outras coisas, que eu cheguei na cidade que agora seria minha.
Decidir sair de casa, é uma decisão de desligamento que nunca mais poderá voltar atrás.
É sexta-feira e uma menina está com uma mala bem imensa do lado. Eu bem cara de pau, desejo boa noite. A conversa surge de um jeito bem espontâneo, e a pergunto de onde ela é, e qual seu nome. Aline, 23 anos, estudante de engenharia civil, Monsenhor Tabosa. Aline decidiu voltar para casa. Ela só estava terminando aquele sorvete e logo iria pegar o ônibus de volta para sua terra natal. O motivo: não conseguiu adaptar-se á nova realidade, as novas pessoas, novos hábitos. “Retornar é percorrer o mesmo caminho de novo e mais uma vez. Eu me sinto fracassada”, conta.
Durante o restante da conversa eu vou me encaixando àquela realidade, que é tão próxima a mim. Aline conseguiu um trabalho de meio período e tentou conciliar com a faculdade, para poder pagar as despesas, já que os pais delas não poderiam ajudá-la financeiramente. Tentou, mas não conseguiu. “Tentar se encaixar, é tão difícil quanto fazer dar certo”. Mas deu. Deu até aquele momento. Agora, Aline carrega uma bagagem bem maior desde que chegou. “Aqui eu conquistei amores amigos e amantes.
Quando saí de casa eu vi que podia conquistar o mundo”. Nos despedimos com facilidade, e eu ali, com a vida dela exposta na minha cara.
Decidir sair de casa, por mais que a nossa família esteja a uns 60 km de distância, é uma decisão que implica assumir toda uma vida, é como ela disse: “eu posso conquistar o mundo”. E retornar, nunca mais será a mesma coisa, você só volta para uma realidade parecida, mas não igual. Cortar o cordão umbilical, seja sentimental, seja físico, é doloroso. É processual. Eu me uno a todos os estudantes que se sentem abraçados pela princesinha do norte, temporariamnete ou não. O que vale a pena mesmo é aquilo com que nós voltamos. Sobral carrega em si as marcas de ser oficina de vida. A cidade só sobrevive pelo seu povo e o seu povo, carrega por amor ou por direito, toda a cultura e história de uma cidade. Porque a história de uma cidade também passa pela minha história.


Gisélia Silveira 

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