Após onda bolivariana, governos conservadores avançam na América do Sul

Foto: AFP
Há uma semana, as urnas no Paraguai confirmaram o favoritismo do conservador Mario Abdo Benitéz, do Partido Colorado. Ele foi eleito com 46,4% dos votos ante os 42,7% de Efraín Alegre, centrista do Partido Liberal, que se aliou a Frente Guasú, de esquerda, do ex-presidente Fernando Lugo. O resultado no Paraguai confirma fenômeno que se alastra pela América do Sul. Em contraponto ao ciclo bolivariano da década passada, há avanço dos governos conservadores.

Na Argentina, está no poder o empresário Mauricio Macri, vencedor das eleições pela coligação de direita Podemos, derrubando o Kirchnerismo. Fator que deu popularidade a Macri reside no fato de ter sido presidente do Boca Juniors. Como mandatário do clube de massa, faturou quatro Libertadores, conquistadas em 2000, 2001, 2003 e 2007.

No peru, está no poder o ex-banqueiro Pedro Pablo Kuczynski. No Brasil, Michel Temer assumiu a Presidência após impeachment de Dilma Rousseff, sua antiga aliada. No Chile, elegeu-se o empresário e economista Sebastián Piñera, membro do partido de centro-direita Renovación Nacional, que sucedeu a presidente de centro-esquerda Michelle Bachelet.

A Colômbia é presidida por Juan Manuel Santos, membro do Partido Social de Unidade Nacional, sigla que se classifica conservadora-liberal. O acordo com as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC) rendeu ao presidente o prêmio Nobel da Paz.
 
Espaços da esquerda 

A esquerda mantém seus redutos. No Uruguai, Tabaré Vázquez sucedeu José Mujica.  Seu partido é a Frente Ampla, uma coalização de centro-esquerda.

No Equador, o presidente é Lenín Moreno. Além de xará do revolucionário comunista russo do século XX, Moreno é membro do partido Alianza País, de esquerda.
 
Na Venezuela, Nicolás Maduro tenta dar continuidade ao ciclo de Hugo Chávez. Promoveu profunda reforma constitucional que aumentou seus poderes e reduziu o espaço da oposição. É acusado de ter dado golpe e governar como ditador. Na Bolívia, Evo Morales permanece como remanescente do ciclo bolivariano.

No placar da disputa entre direita e esquerda nos dez principais países da América do Sul, a contagem é de 6 a 4 para a direita. No passado recente, eram 7 a 3 para a esquerda e mesmo 8 a 2 em um breve período. O que mudou?

Em entrevista ao O POVO Online, o doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Clayton Mendonça Filho, diz que muitos fatores são determinantes para a ascensão do conservadorismo no continente. Um deles se deve a naturalidade de haver ciclos na política. "À medida que a gente tinha um cenário hegemonizado pela esquerda, esparava-se que partidos mais ligados a direita voltassem a ter êxito".

A forma como esta transição se dá, entretanto, é o que surpreende Mendonça. Para ele, fazem parte do fenômeno os valores protofascistas - estágio rudimentar, inicial ou mais primitivo, do fascismo.

Crise econômica 

Outro ponto favorável para a guinada à direita, avalia, foi a crise econômica atravessada por governos de esquerda decorrente do mau momento da economia mundial.

Os países do subcontinente têm dependência de produtos que não existem na América do Sul. Soma-se a isso a queda mundial do preço das comoditties exportadas por eles. "Nossos países são muitos dependentes de produtos que não temos. Isso dificultou muito".

Vice-versa 

O professor da UFC diz ainda que a mesma queda vivida por partidos ditos de esquerda ou centro-esquerda foi experimentada por partidos ditos de direita ou centro-direita no fim dos anos 1990. À época, o fator externo que ocasionou a inversão de ciclo e a ascensão do ciclo de centro-esquerda ou bolivariano foi a chamada "crise financeira asiática".

O Povo

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