Crônica de quinta: Aquela coisa de lembrar

Foto: Gisélia Silveira 
Hoje faltou luz. O motivo foi lá em Belo Monte, estados centro-sul voltaram rapidinho, 15 minutos. Norte e Nordeste seguiram sem energia desde das 16h.
Sem energia a gente percebe a vida passando mais devagarinho. A gente vai falando mais baixinho pra voz se adequar ao silêncio.
O celular fica no canto, as velas começam a serem acesas. Há uns 20 anos, quando a Coelce (hoje Enel) não era privatizada e não bastava o cachorro pensar em mijar no poste, que faltava energia, na minha cidade, a família se reunia na calçada para esperar a volta da eletricidade. Em Morrinhos tudo era um Acontecimento.
Recordo-me que em minha casa tinha um lampião a gás azul. Meu pai acendia e os cinco filhos ficavam ou na sala ou no jardim. "Não aponta para a estrela, menina, vai nascer verruga!", Logo minha mãe me advertia. Eu tinha um céu tão estrelado e parecia tão somente meu. Eu era especialista em contabilidade e nem sabia. Às vezes meu pai pegava o violão e cantava seu repertório como bom seresteiro que era. Eu e meus irmãos íamos para o quarto e brincávamos de fazer formas com as mãos na sombra. Depois a escuridão começava a ficar enfadonha para os mais velhos. "Como as pessoas viviam sem energia elétrica?" A pergunta constante.
Para verificar se não era só na nossa cidade, íamos para a parte de cima da casa e dizíamos "Olha! Lá no Marco já tem luz, é Jajá que aqui volta".
A gente gosta mesmo dessa coisa de lembrança, não é?
Dizem que a luz é mais rápida que o som, talvez não em minha cidade, os gritos começavam e assim sabíamos que a energia tinha voltado. Quem sabe não compraram energia em pó lá no João Carneiro?



Gisélia Silveira 

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