PSDB não fez o que cobrou do PT, diz Gustavo Franco


SÓ PODE SER REPRODUZIDA COM ASSINATURA ALEXA SALOMÃO SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) -O ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, que deixou o PSDB há um mês, diz que ele e outros economistas ligados aos tucanos estavam desgostosos com a sigla havia um tempo. O partido tinha adotado um "discurso ambíguo" em relação à defesa da economia de mercado. O cenário piorou neste ano, quando o PSDB não soube lidar com dilemas éticos. Preservou o senador Aécio Neves na presidência, enquanto é alvo de acusações, e se manteve na base aliada do governo de Michel Temer. 
A agenda de reformista do presidente não justificaria tal apoio irrestrito, segundo ele. "Não vejo no governo Temer a mesma ética que gostaria de ver praticada", diz Franco, um dos formuladores do Plano Real e que se filiou ao Partido Novo. Pergunta - O sr. escreveu uma carta a para explicar a desfiliação, mas é impossível não perguntar: por que deixou o PSDB? Gustavo Franco - As razões estavam todas ali, bem explicadas. No detalhe, há uma questão antiga de como o partido de denominação social-democrata se torna mais contemporâneo. - O que seria isso? Mais em sintonia com os temas de uma economia de mercado que o Brasil precisa se tornar. O PSDB sempre praticou isso quando foi governo federal, embora tivesse um certo incômodo com essa prática e um discurso um tanto ambíguo. É uma questão antiga. Ficou mais desconfortável depois da Presidência do Fernando Henrique, quando sucessores dele no partido, os candidatos [José] Serra [senador], Geraldo [Alckmin, governador de SP] e mesmo o Aécio, não tinham a mesma capacidade que Fernando Henrique de, vamos dizer, ter uma prática diferente da herança social-democrática da geração 1988, que marcava muito a origem do PSDB. 
Isso criava desconforto para mim e muitos outros economistas do partido, mas era muito mais teórico do que real, sobretudo se o partido está fora do governo. Mas depois apareceu a questão específica do Aécio e sobre como o partido deveria se comportar diante de uma dúvida ética. - A questão do Aécio pesou? Sim. Como gesto político, podia ter se afastado para montar a sua defesa. Mas ficar presidente do partido com todas essas dúvidas, para dizer o mínimo, é difícil. Aí houve uma questão imediata: era para fazer o que, no passado, cobramos do PT. - O sr. falou com Aécio depois? Não o encontrei e não falei com ele. Eu e outros no partido também não estávamos satisfeitos com o apoio irrestrito do PSDB a Temer. 
Preferíamos que o partido assumisse uma posição de independência: apoiasse as agendas econômicas, itens que o PSDB tinha sintonia, mas o resto, não. - Por que não ficar na base de apoio se a agenda é igual? E por que não permanecer independente e apoiar apenas as agendas econômicas? Não sei se as agendas políticas fazem sentido. Minha posição é que não. Mas eu sou apenas um professor universitário. Como filiado de muitos anos, mandei minha carta, com meus pensamentos. Não aconteceu nada. Procurei outro partido, onde estou muito confortável e muito feliz. - Qual o problema da agenda política do 'governo? Há um assunto central para mim e para o Novo que é o da ética na política, que tem na Lava Jato um de seus mais importantes impulsos. 
Não vejo no governo Temer a ética que gostaria de ver praticada. - Qual, então, é a sua avaliação para o fato de Temer ter saído ileso nas duas denúncia? Tudo é lamentável nesses episódios, dos quais todos os envolvidos saíram menores. - Por que o Partido Novo? Para começar, porque ele está numa posição privilegiada no processo de renovação político-partidário. Dois, porque tem a mais a cara de uma organização da sociedade civil, como tantas que estão arregimentando gente desiludida com a política tradicional. Três, porque sua tática é fazer diferente do que fazem os partidos tradicionais, inclusive na coisa mais importante para muitos deles que é o fundo partidário. Quatro, porque, do ângulo doutrinário, tem muita afinidade com o que eu penso: que a economia de mercado é um princípio organizador básico da política econômica e da economia brasileira. São quatro boas razões. - O que seria "posição privilegiada"?' 
É uma posição de destaque na renovação política. O quadro de filiados é formado por gente amadora, que nunca teve inserção política. Portanto, está livre dos vícios que tomaram o sistema político brasileiro como uma epidemia de cupim. São brasileiros comuns, profissionais liberais de todas as origens. - O Novo tem sido chamado de "queridinho do mercado financeiro". Ele realmente tem arregimentado essa parcela? Se você for à França perguntar o que gente do mercado financeiro pensa sobre o [presidente Emmanuel] Macron, vai chegar à conclusão de que ele é o queridinho do mercado. 
Na Argentina, vai ser o mesmo com o [Mauricio] Macri. Aqui é parecido. Essa associação é trazida com o intuito de denegrir, mas é um fato da vida. O mercado financeiro traz o pensamento médio de quem tem dinheiro e quer que o país cresça, prospere. As pessoas que estão interessadas na prosperidade do Brasil gostam do conceito trazido pelo Partido Novo. É dessa forma que se deve entender a preferência. - Os críticos ao Novo argumentam que ele é pequeno, jovem e, sobretudo, idealista nas propostas para a economia e para a política. Como o sr. avalia essa leitura? Vejo com absoluto encanto o fato de podermos, em muitos assuntos, na política, começar do zero. As velhas raposas políticas dizem: agora vocês precisam colocar as mãos na lama. 
A resposta é: não. É para fazer a coisa certa. Se não der para fazer o certo, poderemos perder eleições. A disputa eleitoral parece cheia de lamaçais, dizem as raposas. Pois bem, acho que a ideia do partido é enfrentar esses problemas. - E qual seria a sua agenda reformista neste momento? Tem diversas frentes. Duas são da maior importância e urgência. Uma agenda é a da sustentabilidade fiscal do Estado. Temos de reformar as instituições públicas para que seus gastos caibam na receita. A segunda, de abertura e competitividade. O Brasil permanece a economia mais fechada do mundo, a despeito de ter dentro de casa todas as empresas multinacionais importantes do planeta, operando constrangidas, para atender a satisfação do mercado interno, com alto conteúdo nacional e isoladas das cadeiras internacionais de valor que criaram a globalização. Essas duas agendas se conectam. Exatamente no meio está o Estado empresário, que funciona mal, está superdimensionado. 
Tem muita empresa estatal. Muitas poderiam virar de capital aberto, sem controlador. Outras poderiam simplesmente fechar. - Mas, basicamente, não são as propostas do atual governo? Elas se parecem. As diferenças estão nos detalhes, na execução. O desejo de ir mais fundo vai ser o diferencial. 
O Novo pretende apresentar propostas radicais. Esse governo, em nível de retórica, sim, trouxe temas até impressionantes, como a privatização da Eletrobras. E é revelador que um governo do PMDB, que nunca teve afinidade com esse tipo de temática, agora apresente essas coisas com um jeito oportunista muito evidente. É porque os ventos sopram nessa direção. Querem apelar ao público que não é o do PMDB. É claro que, para quem defende essa agenda, pouco importa que o PMDB esteja fazenda certo pelas questões erradas. O que ocorre hoje é que as pessoas, diferentemente do passado, estão dispostas a, ao menos, ouvir ideias novas: fim da estabilidade do funcionalismo, privatização da Petrobras... 
A população agora está disposta a ideias mais radicais, disruptivas, para usar uma palavra da moda. - E, dentro dessa tendência disruptiva, o sr. pretende se candidatar na próxima eleição? Não. Tanto que fui para um cargo de direção e, pelas normas do partido, quem está nesses cargos está impedido de concorrer.
Fonte: Folhapress

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